Enxoval do bebê?

Vou ser mãe, e agora?

Dei um google: Enxoval do bebê…

E voilá: Listas! Compras, quarto, protetor de berço, carrinhos, banheira inflável, cadeirão de alimentação, chiqueirinho, bouncer, andador, 4 pagões, cinco macacões sem manga, cinco macacões com manga, vira de manta, cueiro, chuquinha, mamadeira, aquecedor de mamadeiras, babador, mantas de linha, mantas térmicas, quatro jogos de lençóis, travesseiro, garrafa térmica, lenços umedecidos, 3 toalhas felpudas, 3 toalhas fraldas, 8 pacotes de fraldas descartáveis tamanho P,  8 pacotes de fraldas descartáveis tamanho M, e blá blá blá, por ai vai…

Até aqui tudo normal. Tem coisa pra caramba, mas eu nunca tive filhos antes – quiçá um turbilhão de emoções circulando em minhas veias – e conclui: “é só um bebê ou a escalação da seleção sueca na minha barriga? com certeza ele vai precisar de tudo isso e mais um pouco, quem fez estas listas deve saber do que está falando.”

Fim da lista, segura de mim, clico em IMPRIMIR. Ufa! 

 

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Com a bolsa nos ombros e um pé pra fora da casa, parei! Mas se não fosse eu, não seria! Espera um pouco, da onde vem tudo isso? Da onde saiu essa lista completamente  hegemonia?

a) Uma pessoa fissurada em listas?
b) Várias pessoas fissuradas em listas?
c) Uma turba de pessoas ricas fissuradas em listas?

 

“Lá vou eu. Pesquisa Natália, pensa, questiona, avalia, sai da zona de conforto.”

 

Já ouviu falar em indústria cultural?

 

Vamos lá, o que você lembra quando escuta isso?

 

 

O que te faz lembrar?

Um produto, certo?

E você sabia que era uma sinfonia de Beethoven?

Olha, hoje eu sei. Mas passei anos sem saber, por décadas esta era apenas a musiquinha do caminhão de  gás.

 

Percebe como ligamos uma coisa a outra inconscientemente?

Já ouviu falar em associação inconsciente e o poder da persuasão?

Sem que você perceba, seu cérebro já captou as mensagens contidas nesta página, os desenhos ocultos, e conselhos como “meu filho precisa disso” e “o que é melhor para o seu filho”. Não percebeu nada mesmo? Neste texto que você lê agora, a frase “eu como abacaxi” está escondida entre as palavras. Cuidado! Por mais de 50 anos, estímulos imperceptíveis ou mensagens subliminares como estas assustam consumidores, fomentam teorias conspiratórias e dividem a opinião dos cientistas.

Mas fique tranquila, é apenas uma lavagenzinha cerebral subliminar do bem.

 

Tá! Mas e o que isso tem a ver com maternidade, Natália?

Tudo! Tem a ver com educação! Tem a ver com uma ferramenta muito poderosa para controlar escolhas.

 

“Radicalismo Natália?! Cultura é cultura e não tem o objetivo de controlar ninguém.”

Embora você acredite ser imprescindível ter uma lista pronta para te dar segurança nas escolhas, (se todo mundo imprime listas e abarrota a casa com milhares e diversos tipos de produtos para a chegada do bebê eu também vou) se você comprar qualquer produto destas tentadoras e gigantescas listas você não estará fazendo uma escolha, está sendo controlada pela indústria cultural, pela dominação das máquinas e pessoas no poder da propaganda.

 

“Pessoas que se enquadram cegamente no coletivo fazem de si mesma meros objetos materiais, anulando-se como sujeitos dotados de motivação própria.” Theodor Adorno e a Dialética do esclarecimento –  filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão.

Com base nessa afirmação de Adorno, o comportamento, bastante comum nos dias de hoje, de se preocupar excessivamente com o “estar na moda”, é uma de emancipação das escolhas?

 

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Agora sim. Com toda essa informação, vamos começar de novo?

 

Vou ser mãe, e agora?

1. Eu quero um parto assim-assado, porque eu acredito que seja o melhor para minha família;

2. Eu quero amamentar exclusivamente e até os dois anos…

3. Eu quero que meu filho durma onde ele quiser…

4. Eu quero que ele use fraldas de pano…

5. Eu quero levá-lo no sling e não no carrinho…

… etc… e etc…

 

Pronto. Percebe a sutil diferença? Suas escolhas! Seus valores, sua realidade!

 

Se cada individuo é único, porque reproduzir as escolhas de alguém? Porque se acolher num padrão inviolável? Por que se agarrar a segurança de uma lista sem se questionar se ela faz sentido?

 

A partir dai eu fiz uma lista de enxoval para mim e uma lista de enxoval para meu bebê, pode te ajudar a questionar, e é por isso que dou voz a este blog, mas de maneira alguma tenho a intensão de persuadir suas escolhas. Você pode achar tudo isso uma baboseira desmedida e voltar para outra página com listas e ignorar esse discurso prático de uma mãe de duas, é uma escolha sua. Seja feliz com ela, assim como eu sou com as minhas e não julgo ninguém que escolha diferente de mim.

Mas avalie sempre o que é melhor para você com base nas suas necessidades antes de sair por ai pesquisando o que está na moda, o que o pessoal anda comprando. Mas saiba que mesmo assim, tudo isso, não é garantia de nada. Na teoria é tudo mais fácil e encantador do que simplesmente é, e nem sempre você conseguirá controlar tudo, como por exemplo, quando seu bebê chegar, ele por si só, poderá mudar todas suas regras, é só uma questão de tempo.

 

E pra terminar, quero deixar uma reflexão sem mensagens subliminares (rs):

“O que você faria para defender o seu filho caso acontecesse alguma coisa com ele? Se alguém o agredisse, falasse algo ruim sobre ele, o que você seria capaz de fazer?”

Perfeito! Então agora passe a cuidar das suas escolhas (sejam elas quais forem) com essa mesma força, dedicação e amor.

 

Com amor,

 

Natália Piassentini

 

P.s: Texto inspirado na palestra Construindo saberes da maternidade e paternidade da Bióloga, mestre em psicobiologia, doutora em farmacologia e mãe Lígia Moreira Sena do blog Cientista que virou mãe.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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