Quando aprender outro idioma?

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Por Larissa Fonseca – Engenhoca da Criança

Qual a melhor idade para a criança aprender outra língua?

Como pedagoga, psicopedagoga e pesquisadora em neurociência do conhecimento atuante há dez anos com ensino bilíngue e aquisição de segunda língua na infância, gostaria de fazer algumas considerações importantíssimas para esclarecer esse frequente questionamento sobre quando se deve ocorrer o contato da criança com um segundo idioma.
A idade mais apropriada para colocar a criança em contato com um novo idioma é desde o seu nascimento. Quanto mais cedo a criança for exposta a uma nova língua mais benefícios ela vai ter. Alguns profissionais alegam que antes dos cinco anos, a criança ainda não diferencia a língua materna do novo idioma misturando as duas línguas, o que seria negativo.

No entanto, é fundamental esclarecer que a “mistura de palavras”, normalmente apontada como “confusão”, é na verdade uma estratégia muito eficaz de construção da linguagem usada pela criança. Ela usa os sinônimos e estruturas da língua que já conhece para construir sua fala, para não interromper sua comunicação e esclarecer verbalmente suas ideias.

Para a criança, a língua é um instrumento de comunicação usado para satisfazer suas necessidades. Ela possui suas próprias regras de fala. Como citou Jean Piaget, um dos mais importantes teóricos sobre desenvolvimento infantil, durante o processo de aquisição da linguagem, a criança começa a traduzir o pensamento em frases e a misturar as palavras seguindo um processo mental lógico. Isso independe da(s) língua(s) que se está adquirindo, seja a materna, a estrangeira ou ambas simultaneamente. Com o tempo, convívio com adultos e experiências linguísticas vivenciadas, a criança aprende as regras gramaticais do idioma e deixa de cometer essas “inadequações”.

O mesmo acontece quando a criança está adquirindo somente uma língua, no caso, o português (sua língua materna). Quem nunca ouviu criança falar: “Eu sabo comer sozinha”; “Nós fizemos xiximos”; “Parei de batei já”; “Posso colocar o caçapete (capacete)?”. Esses são casos típicos a partir dos quais podemos notar como a criança vai construindo sua fala seguindo sua própria lógica sobre as regras da língua que já conhece. O mesmo vai acontecer com outros idiomas.

Inúmeros estudos na área educacional, da linguística e da neurociência comprovam os benefícios do acesso a mais de um idioma em idades cada vez mais precoces. Isso porque a exposição da criança (durante a primeira infância) a mais de um idioma aumenta o número de conexões cerebrais (sinapses) o que afeta positivamente o desenvolvimento não só da sua capacidade linguística como também das suas capacidades cognitivas, criativas, intelectuais e sociais. Além disso, quando a aquisição de dois idiomas acontece simultaneamente na infância, as informações ficam armazenadas no mesmo local do cérebro. Isso faz com que a criança adquira ambas as línguas mais rapidamente, sem sotaque e com mais naturalidade. A aquisição de um segundo idioma na primeira infância também facilidade a aquisição de outros idiomas (quanto mais línguas você adquire, mais fácil será a aquisição de novos idiomas).

Tudo isso sem dúvida proporciona inegáveis vantagens profissionais e acadêmicas. O adulto tende a achar que a criança aprende um novo idioma do mesmo modo que ele, mas para a criança, quanto mais nova for, mais natural será esse processo. A criança não aprenderá um novo idioma, ela o adquirirá, assim como faz com sua língua materna. Toda criança nasce pronta para falar qualquer idioma. Nenhuma criança sabe onde vai nascer. O que determinará o(s) idioma(s) que ela vai falar é o contexto linguístico no qual estiver inserida. Ou seja, se a criança nascer no Brasil e somente tiver contato com a língua portuguesa, será esse o idioma que vai falar. Se nascer no Brasil, mas estudar em uma escola bilíngue (por exemplo), ou se seus pais são fluentes em outro idioma e optam por usar essa língua na comunicação com a criança, ela vai falar os dois idiomas (no caso o português e a segunda língua), distinguindo naturalmente as situações de fala.

É uma pena que o bilinguismo infantil ainda seja tão pobremente compreendido no Brasil. Até por sermos um país monolíngue, muitos ainda desconhecem importantes questões sobre aquisição de segunda língua na infância e acabam tratando com ceticismo algo tão positivo para as crianças. No entanto, vale lembrar que existem diversos países no mundo nos quais é comum a criança ter contato com dois ou mais idiomas desde o seu nascimento e que isso só traz benefícios para ela. São eles Canadá, Hong Kong, entre tantos outros da comunidade europeia. Como citou o famoso linguista Noam Chomsky: “a aquisição da linguagem é simplesmente um processo de desenvolvimento de capacidades inatas, de modo que os meninos e as meninas aprendem a falar da mesma forma que os pássaros aprendem a voar”. Coloque seu filho em contato com novos idiomas o mais cedo possível!

E você o que acha sobre isso?

Larissa Fonseca é Coordenadora de Comportamento e Desenvolvimento Infantil da ENGENHOCA DA CRIANÇA (www.engehocadacrianca.com.br). Pedagoga, pós-graduada em educação infantil, psicopedagogia e psicomotricidade. Especialista no Universo do Brincar pelo Centro de Estudos Filosóficos Palas Athena e em psicanálise e educação pelo Instituto de Psicologia da USP

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